Fluxo

Me pediu uma coisa à noite, algo simples, sobre irmos à padaria na manhã seguinte pra comprar uma quitanda que somente ele come. Anuí, disse que tudo bem, anotei no celular. Acordei na manhã seguinte, alegre, bem disposta. Despertei ele com beijos e carinho e fui passar café. Depois de um tempo, me seguiu até a cozinha e lá ficou me encarando. Quando o café já estava quase pronto, me lembrei de ir à padaria. Ficou decepcionado, disse: “com o que eu vou tomar meu café?”. Me senti Eurídice. Fiquei brava mas só um pouco, na superfície. Debaixo de onde arranha a unha fiquei com preguiça, revirei os olhos do lado de dentro. Saiu pra comprar sua quitanda com mamãe. Bebi meu café e a menor parte do café que tinha feito pra ele. A maior parte levei pra minha irmã. Fiquei feliz de levar café da manhã para ela.

Fiz as coisas na manhã no meu ritmo. Não preciso me esconder ou me sentir culpada por não corresponder às expectativas que ele tem sobre meu dia. Que louco, isso? Expectativas de outrem sobre o MEU dia?

Enquanto digito freneticamente essas palavras, tento fugir do pensamento de que ele provavelmente me encara com olhar de aprovação fugidio, porque pensa que estou trabalhando. Não gosto disso. Pode ser projeção da minha cabeça, essa suposição imaginária minha, mas pode ser verdade, pois ele acabou de encostar a perna em mim. Quando está nervoso, tira a pele de perto, quase como que com repulsa. Não é muita coisa, mas às vezes é.

Gosto de quem estou me tornando. Me sinto confortável assim sendo e me descobrindo e me transformando dia após dia. Às vezes falo coisas e me arrependo. Faço coisas e depois julgo que fiz errado. Mas ontem Marcella me disse que o erro pode ser bom. É muito melhor a curiosidade de olhar pro erro do que o julgamento, a dureza. Não há necessariamente leveza nisso, mas é possível haver um peso mais sensível, um peso delicado.

Je dois apprendre aux curieux. Isso inclui a mim mesma em primeiro lugar, né… Ao menos deveria.

Adultescer (2)

Quando termina a análise preciso ficar deitada olhando pro teto. De repouso por um tempo. Igual uma mulher que faz inseminação artificial e precisa esperar deitada de pernas pra cima até o óvulo ser fecundado. Eu espero até me fecundar pelas minhas próprias palavras. Fico quieta e meio mole o dia todo. Demoro até pegar no tranco. Não consigo fazer muita coisa no dia da análise, fico imprestável, e não vejo problema nisso. É libertador ser imprestável. Quando sou inútil para o mundo é que me torno solo mais fértil pra brotar quem eu sou.

Penso em sair de casa e me vêm à cabeça imagens de uma horta na sacada, de uma bancada de cozinha com cheiro de café recém-passado, uma torta de banana no forno, cheirinho de lavanda em coisas limpas, arejadas, frescas e claras. Música em (quase) todos os cômodos, e bastante silêncio também. Imagens de florescimento, de fertilidade, pra comemorar vida nova. O luto da infância e da adolescência pode ser vivido assim também: “não vou esquecer / vou te celebrar”. Tudo ainda está presente e vive no aqui e agora.

 

8 anos depois disso: https://doqueprecisaamargarida.wordpress.com/2012/10/15/adultescer/

Valor próprio

O que aconteceu: eu fiz uma decisão monocrática em um processo e esqueci de riscá-lo da lista do desembargador. Ele fez um despacho relativo ao mesmo processo, depois descobriu que o processo não estava mais concluso, ficou chateado por ter desperdiçado o próprio tempo e por eu ter errado em não riscar o processo da lista e ter acabado jogando fora o trabalho dele. A forma que ele encontrou de aliviar sua frustração por isso foi vindo à minha sala e me dando bronca em frente à minha colega, dizendo que eu tinha que me esforçar mais, porque ele está trabalhando muito e o número de processos não abaixa, e eu não estava fazendo a minha parte.

Pouco antes disso, outra colega de trabalho veio me repreender por ter feito processos que em tese, no seu entendimento, deveriam estar suspensos por força de determinação do STF. Nosso chefe fez um processo no mesmo sentido que eu, mas esta colega veio falar comigo, apontando um erro meu. Eu me defendi de forma enfática e falei pra ela se informar melhor. Disse que estudei o processo e que ela não estava atenta às informações do próprio caso que estava sob sua própria responsabilidade. Ela aparentemente ficou um pouco ofendida e saiu por cima, como se estivesse querendo relevar minha atitude e cortar a discussão, que seria improdutiva.

Com o tempo, trabalhando aqui, percebi que não sou uma servidora ruim. Sou capaz, sou inteligente, sei aprender, sei pesquisar, procuro ser atenta e ter uma boa redação, explicar bem os raciocínios que conduzem ao posicionamento e resolução adotados em cada caso. E eu tenho me esforçado. Não consigo manter minha concentração plena 100% do tempo, mas tenho me saído bem. Minha produção não é baixa. Mas não é o suficiente para as pessoas com quem trabalho.

Me sinto humilhada. Não acho que ninguém mereça passar por isso, ter essa sensação.

Todas as minhas amigas estão passando por situações piores do que a minha. Não quero sobrecarregar minha família, que também tem suas próprias questões e problemas. Não posso contar com ninguém do meu local de trabalho.

Quis muito chorar, e acho que o choro ainda está preso aqui dentro em algum lugar. Estou tentando cuidar disso ouvindo músicas confortáveis e perguntando como minhas amigas estão, tentando ser participativa na vida delas. Mas acho que vou ter que chorar alguma hora hoje.

Gostaria de poder pedir demissão. Na minha família sugeriram duas vezes que eu saísse do trabalho, vendesse meu carro e me dedicasse somente a estudar. Tenho medo de ficar por conta de estudar, não passar em nada e descobrirem que sou uma farsa. Não creio que daria conta da pressão de ser sustentada pela minha mãe enquanto me dedico somente a estudar pra concursos.

Preciso pagar o aluguel da tia Arminda, meu plano de saúde e o do Thales, nossos planos de academia, minhas despesas particulares. Não me sentiria nem um pouco bem, confortável ou feliz em transferir essas responsabilidades, que são minhas, pra minha mãe, no caso de eu perder minha fonte de renda própria.

Não me arrependo de ter comprado os ingressos pro Wacken, pois é um sonho nosso de adolescente, meu e do Thales, e será uma linda experiência. Talvez o timing não tenha sido o mais ideal, mas vou tentar focar somente nas partes boas dessa resolução, e arcar até o fim com o pagamento dos custos dessa viagem, que vai valer muito a pena.

Nesse meio tempo, vou aprendendo a lidar com a humilhação que tenho sentido no meu local de trabalho. Me sinto protegida com meus fones de ouvido. Ainda bem que existe a música. Espero que o dia passe rápido para que eu possa ir à análise amanhã.

Ainda bem que fiz esse blog, ainda bem que aprendi a escrever. Ainda bem que existem palavras pra tentar jogar pra fora da gente as coisas que são difíceis de traduzir. O importante é tentar. Eu juro que tenho tentado, de verdade. Com as forças que eu tenho, eu tenho tentado de verdade. Espero que seja o suficiente.

“Amiga, não minta”

Argumento: sofrendo há mais de 15 anos com transtorno de ansiedade generalizada e há 2 meses com depressão, uma mulher de 25 anos se surpreende ao sair-se bem em uma importante prova profissional mesmo depois de passar semanas pensando quase que exclusivamente em morrer. Após receber esse inesperado resultado positivo sobre sua performance, ela se sente motivada a engajar-se na missão de tentar modificar positivamente o curso de sua vida. Faz planos, desenvolve perspectivas de futuro a curto e médio prazo, buscando esforçar-se em ser honesta e completamente aberta em suas sessões de análise. Até que, numa tarde qualquer de junho, em meio a este processo de ressignificação de sua própria vida, sua distração e falta de cautela provocam, não intencionalmente, um evento na copa de seu local de trabalho que acarreta desastrosas proporções. Ao tentar guardar alguns pratos e louças que acabara de lavar depois de usar, segurando os talheres com as faces pontiagudas voltadas para o próprio corpo, sem perceber, ela acidentalmente esfaqueia a própria barriga, gerando uma grande hemorragia que lhe causa um brusco desmaio. Levada às pressas para o hospital na ambulância do tribunal em que trabalhava, em uma ação cinematográfica da equipe de salvamento, ela é submetida a uma cirurgia de emergência, com grandes riscos de perder significativa porção de seu trato digestivo. Ao acordar, espantada com a gravidade do corte profundo que, por falta de cautela, se autoinfligiu, encontra toda a sua família e amigos abaladíssimos com o acidente, mais do que se poderia admitir como aceitável, e percebe que todos a tratam com muito cuidado e delicadeza, quase como se fosse um bibelô muito frágil de porcelana que poderia se quebrar a qualquer instante. Com muito sofrimento em seus semblantes, sua mãe, sua irmã, seu namorado e sua melhor amiga lhe indagam, de diferentes formas e em diferentes momentos, o porquê de ela ter se machucado daquela maneira, o que faz com que ela comece a desconfiar de que sua família não acreditava que o incidente fosse, de fato, um acidente. Alguns dias depois, ainda internada, abre uma página do G1 e descobre uma série de notícias sobre prevenção ao suicídio entre jovens concurseiros. Entende que todos ao seu redor creem que a facada foi, na realidade, uma tentativa de suicídio, e se vê, então, forçada a tentar provar para todos que não tentou se matar (inobstante de fato estivesse pensando em morrer nos últimos tempos – mas uma coisa era uma coisa, e outra coisa era outra coisa). Entre sucessivas visitas à médica que acompanha seu quadro de ansiedade, sugestões insistentes de internação psiquiátrica por parte de muita gente ao seu redor, interações repentinas e inimagináveis entre pessoas que jamais suspeitava que pudessem vir a dialogar umas com as outras (como uma reunião presencial marcada por sua analista com sua mãe, irmã, namorado, amigas, tio e pai – que se encontram pessoalmente em razão do susto dos últimos acontecimentos, embora se odeiem mutuamente), visitas midiáticas absurdas de profissionais de coaching de “valorização da vida” e de grupos religiosos diversos e até mesmo uma música feita em sua homenagem por uma banda local, a mulher inicia a tragicômica missão de se dedicar a convencer as pessoas de que não é suicida.

Nota

“She was a genius of sadness, immersing herself in it, separating its numerous strands, appreciating its subtle nuances. She was a prism through which sadness could be divided into its infinite spectrum.”

― Jonathan Safran Foer, Everything Is Illuminated

Exemplo

“A vítima de estupro que se veste dessa forma colabora para a prática do crime”
“A presidente comentou que o número de estupros está maior do que o de homicídios dolosos. Então agora estuprar é pior do que matar alguém?”

O senhor, doutor Eminente Magistrado Machista e Elitista, infelizmente representa boa parte das pessoas que comandam esse país e ocupam posições de poder nessa terra.
E quero que o senhor saiba que sou grata ao senhor.
Minhas maiores fontes de inspiração e motivação pra lutar e conquistar não se resumem à minha ohana e às pessoas que quero ajudar nesse mundo.
Elas também envolvem gente como o senhor. Quero entrar no sistema pra combater posturas e atitudes como as suas. Quero estar dentro pra que cada vez mais pessoas como o senhor estejam fora. E quero que minha atuação represente a inclusão no sistema de todas as pessoas que o senhor, junto com tantos outros, oprime através do seu discurso venenoso.

O Haver – Vinicius de Moraes (1962)

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe. 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza 
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história. 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa 
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade 
De aceitá-la tal como é, e essa visão 
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.